Vencendo meus medos
Já perdi a conta de quantas pessoas falaram pra mim quando
eu cheguei aqui: “se você já conhecia a China, sabia das dificuldades, porque
resolveu voltar”? Essa é uma boa pergunta, e eu tenho um milhão de respostas
prontas para essas pessoas, mas a verdade para mim é se fosse fácil não seria
tão fascinante.
O ser humano é por natureza inquieto, questionador,
explorador. Basta ver uma criança quando ganha um brinquedo novo, não quer
saber de outra coisa e passado dois ou três dias perde o interesse. Depois de
adultos não somos diferentes, canso de ver pessoas infelizes com seu emprego ou
com um relacionamento, mas infelizmente depois de adultos não temos tanta
coragem de mudar, de mostrar nossa insatisfação simplesmente por medo. A frase “Nada
é tão ruim que não possa piorar” sintetiza esse comportamento.
Ninguém teve mais medo que eu de largar uma boa vida pelo
incerto que eu, vir para China sozinha, apenas com um endereço e uma carta na
mão e minha vida em duas malas. Mas se perguntar nesse momento, mesmo com todas
as dificuldades se eu me arrependo? Não.
Analisando a minha primeira experiência na China aos 20 anos
de idade com a experiência que estou vivendo hoje, passados 4 anos, posso dizer
que o tempo muda tudo. À medida que o tempo passa ficamos mais exigentes, mais responsáveis,
somos mais cobrados, lidamos com maior pressão e incertezas relativas ao
futuro. Mesmo assim, se eu tivesse que escolher, prefiro a experiência que
estou vivendo agora e vou explicar o porquê.
A China me ajudou a vencer os meus medos, um por um.
Começou com o rato no meu quarto de hotel, depois uma
baratinha no meu dormitório. Eu tenho horror a barata, nunca na minha vida
tinha nem tentado matar uma, só conseguia fugir delas. Aqui encontrei uma no
meu quarto, não tinha ninguém para me ajudar eu tive que tomar coragem e matar
ela, preferia ela morta do que andando pelo quarto, foi uma perseguição
incrível digno de filme de Holywood mas no final eu consegui, fiquei com um
pouco de remorso mas muito orgulhosa da mim.
A primeira vez que eu entrei no refeitório da universidade
foi assustador, como em uma selva, centenas de pessoas amontoadas gritando por
comida que eu não conseguia nem identificar o que era. Eu sentei numa mesa e
observei meus colegas de classe irem atrás da comida deles, literalmente brigar
por comida, perdi a fome na hora. Comecei a lembrar da teoria de Darwin, se
fosse na selva, eu morreria, apenas os mais fortes sobrevivem, fiquei com pena
dos meus ancestrais, quantas dificuldades eles passaram para perpetuar seus
genes e eu seria o elo mais fraco em várias gerações? Não achei justo, e fui
atrás da minha comida. Hoje ninguém passa na minha frente na briga pela comida,
pode ser que eu tenha voltado um passo ou dois na evolução da civilidade, mas
com certeza não morrerei na selva.
Nem só de experiências embrutecedoras vive essa que vos
escreve na China.
Antes de vir para cá, minha vida era uma guerra por “independência
ou morte”. Eu queria ser forte, mostrar que não precisava de ninguém e
conseguia me virar sozinha. Que estranho paradoxo, quando eu finalmente achei
que estava sozinha, eu entendi que nunca estamos sós. Sempre tem alguém
torcendo, rezando, mandando boas energias mesmo que de muito, muito longe. Eu entendi que não é fraqueza precisar de
alguém compartilhar seus medos e essa com certeza é a experiência mais valiosa
que levarei comigo.
Esse será meu primeiro natal longe da família, confesso que
estou com um pouquinho de dor de cotovelo. Desejo a todos um feliz natal e que
realmente o espírito natalino aproxime cada vez mais a pessoas e que possam realmente
valorizar o que importa o amor, a paz e união.

Comentários
Postar um comentário