Aguardando dias melhores na China



Instalei-me no quarto 408, minha colega de quarto era uma tailandesa que não fala inglês, e assim como eu arranha um pouco de chinês.
 
Não tinha notícias de quando as aulas iniciariam. No dia 30 a única informação que eu tinha era que no dia 02/09 (detalhe: DOMINGO) eu teria que ir no ginásio da universidade que lá todas as minhas dúvidas seriam esclarecidas.
 
O que fazer com tanto tempo livre, tanta ansiedade e medo do que me esperava? Quando o horário permitia ficava pendurada no skype com a minha família e enviava milhões de e-mails desesperados para os meus amigos (obrigada aos que responderam, eu lia mil vezes cada email que recebia). Parecia que eu tinha perdido uma parte de mim, me sentia vazia, sozinha nem eu me reconhecia.

Agora citando a letra da música do Engenheiros do Hawaii:
"Eu que não fumo, queria um cigarro / Eu que não amo você/ Envelheci dez anos ou mais / Nesse último mês / Eu que não bebo, pedi um conhaque / Pra enfrentar o inverno"
Eu poderia adicionar uma estrofe na canção: "eu que não choro, chorei noite e dia na chegada à China, chorei até dormindo" como seria possível?

Acho que algumas pessoas mais próximas estavam realmente preocupadas comigo, até eu fiquei preocupada comigo.

Infelizmente só eu podia fazer algo para mudar essa realidade, comecei a buscar contatos de comunidades de brasileiros em Beijing, enviei um email para algumas pessoas que eu sabia que também estavam estudando na China na esperança de fazer algum amigo aqui. (Mais tarde eu falarei de alguém que como um anjo apareceu para me ajudar, sem me conhecer, sem pedir nada em troca, como tem que ser em toda amizade verdadeira)

Dentro da universidade achei que minha vida seria mais fácil, mas mesmo assim, eu passei os dias indo ao mercado, ao restaurante (não arrisquei entrar na cantina), e ao Mc donald´s sozinha. Sentia-me como uma criança de sete anos que chega pela primeira vez no pátio da escola, tudo parecia enorme e assustador, e o pior, eu não podia ir para casa no final do dia.

Era muito ruim ter que fazer tudo sozinha, não ter ninguém para compartilhar um café ou um almoço. Sem falar que a comida aqui é muito diferente de tudo que estamos acostumados, eu ainda estava assimilando o choque cultural e pensava que o quanto eu pudesse adiar eu não comeria comida chinesa, não estava precisando de complicações de saúde já me bastava as psicológicas.

Um belo dia minha colega de quarto resolveu trazer um lanchinho para mim. Muito gentil da parte dela, quando abri o pote tinha algo irreconhecível, pedacinhos de alguma coisa empanados, cobertos com um molho vermelho. Olhei para comida e não tive coragem, fiquei um tempinho pensando, mas infelizmente todas as minhas aulas de etiqueta e relações internacionais não me deixariam fazer essa desfeita tive que arriscar.
 

Bom o gosto é indescritível, como se fosse um frango de borracha empanado em um molho agridoce, comi uns quatro pedacinhos e guardei o resto para jogar fora sem que ela visse.

E assim eu passei os primeiros dias na BLCU.

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