As pesssoas podem ser boas
No domingo 02 de setembro às 8:30, teria que ir até o ginásio terminar a minha matrícula e descobrir quando iniciariam as aulas, olhei para janela e estava chovendo, nunca chove em Beijing, mas nesse dia estava chovendo.
Depois fomos ao mercado aqui perto e ela perguntou se eu queria ir para o centro e poderíamos almoçar juntas. Por alguns minutos hesitei, porque seria a primeira vez que sairia dos arredores da BLCU e eu mal conhecia ela, porque ela convidaria uma estranha para almoçar? Mas resolvi arriscar, precisava fazer amigos tinha que confiar em alguém.
Dizem os antigos que quando chove em um dia importante é bom sinal, tomara! Porém para mim não era bom sinal, não tinha sombrinha, e era domingo. Acordei com uma saudade de casa, sabe aqueles minutos antes de você acordar que você está consciente mas não abriu os olhos ainda? Então, hoje durante esses minutos eu achei que estava em casa, e quando abri os olhos que decepção, estava trancada nesse quarto, com fome e sem nenhum conhecido.
Aliás a fome foi uma companhia fiel nos primeiros dias, tudo que eu comia era diferente que não conseguia comer muito e logo ficava com fome novamente. Comer não era uma boa experiência, eu só comia quando eu estava com muita fome.
Saí do meu quarto com todos os papéis que me deram no primeiro dia, rumo ao ginásio com uma toalhinha na cabeça e correndo da chuva, que cena! Sabe aquele dia tudo parece errado? Só faltou eu escorregar e cair na lama.
Chegando no ginásio haviam várias pessoas esperando alguma coisa, e eu não sabia o que deveria fazer lá. Encontrei duas estrangeiras e perguntei se por acaso elas sabiam o que deveríamos fazer alí? Uma delas leu o meu papel azul (estava tudo em chinês) e falou que ela também era estudante de mestrado e que eu podia aguardar junto com ela.
Começamos a conversar, uma era francesa chamada Sabrina e a outra espanhola chamada Marta. A Sabrina já estava esperando há uma hora, pois deram o horário errado para ela. Ela resolveu questionar alguém da organização que disse para irmos embora que não deveríamos fazer nada ali.
Mais uma coisinha que eu aprendi na China, cheque mil vezes a informação com pessoas diferentes, cada um vai dar um parecer e você escolhe qual achar melhor.
Nós três estávamos indignadas, como não é aqui? A Marta pediu para um colega chinês dela checar a informação, e logo vem ele nos chamando para entrar no ginásio.
Entramos no ginásio, recebemos um bendito carimbo na folhinha azul e estávamos livre por hoje. Alívio por ter conseguido o carimbo, mas ainda não tinham nos dito quando começariam as aulas? Tínhamos que ir na segunda-feira em outro escritório para terminar a matrícula e então descobrir quando inciariam as aulas.
A Marta se despediu e foi embora, eu continuei conversando com a Sabrina, descobri que ela é casada e que já estudou nesta universidade há 8 anos, e mesmo assim ela não sabia quais seriam os milhões de procedimentos que teríamos que fazer.
Falei para ela que estava me sentindo muito mal e que não conhecia ninguém aqui, na verdade eu estava quase chorando, mas eu não tinha nenhuma expectativa que conhece-la mudaria alguma coisa, só precisava desabafar com alguém.
Ela me ajudou a comprar um cartão de celular, para que eu pudesse me comunicar com os meus diversos amigos aqui. haha
Na verdade o escritório dos estudantes estrangeiros estava me enchendo a paciência para eu dar o número do meu celular, era obrigatório para eles manterem o contato com os alunos. Foi difícil fazer eles entenderem que eu não tinha telefone, estava só há 4 dias na China, enfim a Sabrina me ajudou a resolver esse "problema".
Pegamos o metrô e fomos até a loja da cunhada dela no centro de Beijing. Uma lojinha pequena, mas muito bonita que vende todos os tipos de acessórios artesanais para mulheres, como colares, pulseiras, brincos, etc.
A loja tinha um cheiro muito bom de incenso e era toda decorada no estilo oriental, tinha um mesinha com banquinhos chineses, onde estava sentado o marido da Sabrina tomando chá. Sentamos nos banquinhos, ficamos os três conversando e tomando chá até quase 13:00 horas.
Eu e a Sabrina estávamos famintas, fomos até um restaurante muçulmano perto dali, o marido dela ficou na loja.
Pedi um tipo de macarrão com vegetais e passei um pouco de sufoco para comer porque era a primeira vez que eu estava sendo obrigada a comer com kaizi (aqueles pauzinhos) mas comi, só parei quando achei um fio de cabelo no macarrão. Mas aquela altura eu estava com a cabeça toda dentro do prato tentando comer aquele macarrão que insistia em escorregar. Não sabia se o cabelo era meu ou se já estava no prato. Não falei nada óbvio, apenas parei de comer e disse que já estava cheia.
A Sabrina insistiu em pagar o almoço, fazia tanto tempo que ninguém pagava minha conta que eu achei até estranho, deve ser coisa de país desenvolvido. haha
Retornamos para loja, depois a Sabrina e o marido dela me acompanharam até a rua onde eu pegaria o metrô, ela desenhou as estações que eu deveria seguir. Retornei sozinha sem grandes problemas, minha primeira voltinha de metrô sozinha em Beijing. Senti que aquela criança que chegou no pátio da escola já estava ficando mocinha e fiquei feliz.
Refletindo sobre a atitude da Sabrina:
Ela com certeza notou a minha tristeza e resolveu me ajudar. Sem nenhum motivo, ela não me conhecia, não era do mesmo país que eu, não falávamos a mesma língua (nos comunicamos em inglês) mesmo assim ela resolveu me ajudar, e eu não pedi foi espontâneo. Talvez nem ela saiba o quanto aquele gesto tenha me ajudado, eu só precisava de alguém para conversar. Eu já estou tão acostumada a ler notícias ruins no jornais, tão acostumada a pessoas que se aproximam apenas porque querem algo em troca, que quando alguém com reais boas intensões oferece ajuda eu desconfio.
Lição de hoje: as pesssoas podem ser boas.

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